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Viver é não ter a vergonha de ser feliz
Eu ainda me considero em recuperação. Há dez anos não uso nenhum tipo de substância que possa mudar meu comportamento. "Iniciei muito cedo. Aos nove anos, tomei meu primeiro porre. Com 11, a primeira maconha". "Sempre tive boas notas na escola, mas aí ,veio tudo que era droga, a cola de sapateiro, a benzina de isqueiro, o éter, cogumelos e sempre a bebida (cachaça, samba)".
Aos 15 anos, meu pai abandonou a família. "Eu era muito apegado com ele. Ele foi viver como mendigo, nas ruas em Santa Maria. Sucumbiu à bebida e depois perdeu os dois pés, por causa de uma trombose". No mesmo período de minha vida, T fui traído pela namorada. "Foi outra decepção".
"Então, comecei a me desmotivar, perdi o interesse pelo colégio. Só queria saber de festa, amanhecia nas esquinas, na Praça, nos escuros. Aí começou a cocaína, os apagões, as tremedeiras".
No ano em que completei 18 anos, tive um acidente de carro. Fiquei 20 dias sem sentir as pernas. "E aproveitei para refletir sobre o que estava fazendo na vida. Meu sonho era ir para o quartel e eu perdi essa oportunidade". Foi então que tomei a decisão de não usar mais drogas. Mas continuei no álcool. "E isso foi o que me levou ao fundo do poço, fez com que as pessoas se afastassem de mim, eu não conseguia serviço, vivia pedindo nos bares, dormia na sarjeta". Até que um dia, uma tia pediu que eu fosse a Porto Alegre ,levar uma sobrinha. "Fiquei uma semana sem beber. Isso foi em 1998. Num dia daqueles, eu caí e comecei a vomitar sangue e perder sangue pelo nariz. Tinha uma tosse seca. E ninguém me estendeu a mão quando estava caído". "Depois, fiquei pensando: em São Sepé, nem um cachorro ficaria sem atenção". Eu tinha, então, 22 anos. Decidi ir a um posto de saúde, aonde foram solicitados exames. O diagnóstico era um derrame pleural ocasionado por tuberculose. E também estava com anemia. "Aí, eu me assustei. Enquanto esperava o resultado, foram os 45 dias melhores e piores de minha vida. Piores, porque estava com abstinência, quebrava tudo, ficava trancado à força. Tremia, sentia frio, falta do álcool. E melhores dias porque, depois que se passaram os dias de loucura, quando perdi 68 quilos em 20 dias, aí me mandaram para o Centro Murialdo do Sanatório Partenon, em Porto Alegre", lembra Tinêga.
Certo dia, quando internado, foi a uma reunião de Narcóticos Anônimos e Alcoólicos Anônimos. Então, uma moça chegou e citou uma frase do Paulo Coelho: "Todos os dias, Deus nos dá um instante em que se é possível mudar tudo aquilo que nos deixa infelizes. Um instante onde um sim ou um não podem mudar toda a nossa existência". E eu optei pelo sim.
No ano 2000, voltei para São Sepé, ainda meio perdido. Procurou o Cess, onde havia desperdiçado muitas chances. Mas teve, da professora Marlene Pinto, mais uma oportunidade. "Agradeço muito a ela. Voltei a estudar, me relacionar com as pessoas, começaram a confiar em mim novamente. Também fui muito bem acolhido no AA e Amor Exigente". Graças a um trabalho que fazia com o padre Dalvino, no Presídio de São Sepé, um dia, o diretor da instituição, Márcio Dutra, informou-lhe que haveria uma oportunidade de trabalho como agente de redução de danos. Entre 20 candidatos, fui escolhido com outro colega, em maio daquele ano. Devido às necessidades de adequação de horários, ele esperou uma vaga no Ensino de Jovens e Adultos do Instituto Tiaraju, onde conclui o Ensino Médio em três meses. Então, começei a me dedicar aos usuários de drogas, profissionais do sexo, e outras pessoas que necessitavam do serviço de redução de danos. "É muito gratificante. Não apenas oferecemos camisinhas ou trocamos seringas. Nós conversamos, fazemos amigos, nos tornamos confidentes".
Hoje sou convidado, a fazer palestras nas escolas, contando a sua história. "Minha intenção é ajudar as pessoas. Pode ser que elas não mudem, mas pelo menos a semente está plantada. Sempre digo para eles que eles são o Chapeuzinho Vermelho e a droga é o Lobo Mau", exemplifica.
"Meu sonho é estar sempre evoluindo, em crescimento, e ajudando outros dependentes que queiram sair deste inferno que é a dependência quimica. Vou conseguir".
Zueli Gomes






